Arquivo do mês: novembro 2010

Razão insólita

Eram 13:45, as batidas sutis do lápis, porém contínuas do Professor em sua mesa,  delatava toda a agonia que lhe afligia, seu desejo de que o silêncio se fechasse e prolongasse ele já havia conquistado, afinal todos esses anos no ensino letivo,havia dado experiência suficiente para conhecer todas as faculdades e artmanhas de suas “peças de trabalho” e consequentemente o caminho para que eles se sustentassem em silêncio, a sala de aula sempre foi o lugar de seu absoluto domínio, isso só era capaz devido a afirmação que isso tinha em sua mente, mas o tempo ele não havia de controlar, talvez por isso naquele dia se sentia frágil, a agonia do tempo se expandia pelo calor insuportável dos longos dias ensolarados do verão, e que era traduzidos pela gota de suor que involuntariamente escorria pelo antebraço de Pedro Augusto, até chegar em seu cotovelo e pingar no seu caderno pouco rasurado.      A escola sempre foi o grande desafio de Pedro, como qualquer criança de 8 anos o que mais lhe dispersava de concentração era o que mais lhe deixava feliz e numa infeliz coincidência também o afastava de qualquer problema. Pedro estava de cabeça baixa e recostada no braço que estava sob o caderno em sua carteira, lembrando aqueles alunos que estão preocupados em definhar o seu sono não se importando o lugar onde estão, mas não era o caso de Pedro. Por causa do extremo calor daquele dia Pedro havia se concentrado nele e sabia se levantasse a cabeça poderia acontecer o que ele sempre lutava contra, apesar que para o Professor e para todos o seus coleguinhas isso já não seria novidade, pois a grande maioria dos alunos da 3º série onde Pedro estava, eram os mesmos da série anterior, e o Professor também já havia sido orientado para qualquer ocasionalidade, mas Pedro sempre lutava, pois não gostava de ser sentir o alvo de olhares retenciosos a sua alienação preso no invólucro de seu algoz.
As janelas já abertas não amenizavam a insistência do calor, mas era a única alternativa, se não fosse a extrema intransigência do Professor, que mesmo com qualquer adversidade não entregava o pleito do magistério as trepidações da desordem, tinha consigo uma convicção inabalável que muitas vezes arruinavam as dúvidas didáticas de seus alunos, os convenciam que não haviam sequer um lapso para o desentendimento de seu impecável trabalho, ou não faziam por medo de se tornarem chacota para sua sala e as vezes para grande parte da escola.
Com a conclusão da revisão do trabalho de seus alunos, sempre sob um olhar muito crítico, o Professor fecha a sua cardeneta de notas bimestrais, e volta o olhar para a sala, mesmo com o silêncio, ele era imponente, pois sabia que algum incidente poderia acarretar o fim dele, e não era o que ele desejava, olhou para todos que estavam ali e com o olhar de uma águia, viu Pedro que estava a sua esquerda, na fileira ao lado da parede. exatamente atrás de quatro alunos e viu nele uma ameaça, pois era único que estava de cabeça baixa recostada nos braços e disse sem se importar com a cena.

-Pedro volte a fazer o seu dever!.

A voz ecoou naquele silêncio e chegou a Pedro, tomando-lhe qualquer resquício de força para lutar contra transgreção de sua mente.

– Pedro! você não me ouviu? disse o Professor insistente e mais alto

Vagarosamente e já com o olhar disperso e concentrado, Pedro levanta não só a cabeça, mas também de sua cadeira e diz:

-Isso não pode mais acontecer!

Naquele momento todos os olhares que estavam no professor se voltaram para Pedro

-Como disse? – Pegunta o Professor

-Vocês estão vendo o que ele faz conosco? Todo esse calor que estamos passando, sem sequer tomar agua, é culpa dele!

O que ele esta fazendo? – Pensou pasmo o Professor.

-Vocês gostam de apanhar do Pai, da Mãe, quando não obedecem ele? de ficar de castigo, sem video-game, sem tv…

Nenhuma das indagações de Pedro eram respondidas, mas todos estavam concordando e admirando silenciosamente aquela revolução.

-Por causa dele temos que parar de brincar pra fazer lição, pra dormir, pra acordar cedo! Não podemos mais aceitar isso.

-É isso mesmo! – disse Carlos.

Carlos era um aluno de 12 anos, repetente, que não se dava bem com o aprendizado didático pois os da rua ja lhe tomavam bastante tempo, tinha a predileção do professor para a repreensão, como forma de compactuar a todos com o seu exemplo.

-Se nós acarbarmos com ele ficaremos livres! Não ficaremos mais de castigo, não levaremos bronca do nossos pais, iremos brincar a hora que quisermos sem se preocuparmos e nem precisaremos voltar mais aqui!!
O Professor a esse ponto tinha deixado de encarar Pedro como uma ameaça ao silêncio  colocando ao posto de anarquista, levantou de sua mesa e foi em sua direção. Pedro continuou com seu discuro
-Mas eu não posso conseguir isso sozinho, eu preciso da ajuda de vocês, quem vai me ajudar?- Disse Pedro sempre olhando para seu algoz
Percebendo a concentração de todos, o Professor a passos largos chegou a Pedro e ficou parado bem próximo a ele e disse com a mão ligeiramente suspensa e muito agitada

-O que você pensa que está fazendo, meu rapazinho? Você esqueceu onde está? Onde está querendo chegar com esse discurso? Saiba que você irá pagar muito caro por ele! Todos iram saber dessa infâmia que fez hoje aqui! Tenho que levá-lo imediatamente na diretoria!
O professor se pusera a livrar-se rapidamente daquela situação, pegou firmemente no punho de Pedro e continuou
-Vamos! você irá se arrepender por essa…
-Solte ele seu babaca!
O Professor não obteve chance de ver onde vinha aquele insulto… antes de se virar  ele sentiu um forte golpe que ao mesmo tempo o atingiu nas costas e na nuca o  nocauteando e tambem em consequência, empurrando Pedro que estava a sua frente, que pelo peso do corpo do mestre, não obteve equilíbrio e tambem tombou-se
-Não pode ter sido um aluno – Pensou o Professor no meio tempo antes de quase perder os sentidos
E ele estava quase certo sobre isso, qualquer aluno daquela série não obtinha força suficientes em punho para derrubar um homem de 45 anos, saudável, Carlos havia tomado pra sí o discurso de Pedro, acreditando piamente nele, ou visto ali a sua grande oportunidade de se vingar, Carlos levantou de sua mesa trazendo consigo sua cadeira, quando o Professor pegou no punho de Pedro, arremeçou-la.
Somente o professor não havia percebido a movimentação de Carlos, os olhares da sala  havia se dividido em audição e visão, com os gritos do Professor e o caminhar de Carlos, e como num filme de suspense observaram atônitos até o seu derradeiro fim, mas curiosamente não tentaram avisar a vítima sobre o seu malfeitor.
Com a queda do Professor e de Pedro, houve um sentimento mútuo de desespero entre os alunos, que após a cena saíram  rapidamente da sala aos tropeços, logo após de Carlos obviamente, que foi o primeiro a sair, e em alguns segundos todos se evacuaram, Pedro estava caído a 2 metros do Professor mas pouco sofrera pela queda, e após 2 minutos já estava em pé novamente e ainda decidido a findar o seu objetivo
-Droga! assim será mais difícil, mas eu posso fazer sozinho.
O Professor estava caído, debruçado sobre o chão quente de madeira de cor carvalho, estava consciente, porém impossibilitado de se mover pela dor que o afligia, ouviu as palavras de Pedro sobre que haveria de concluir de qualquer maneira, estava muito debilitado e não poderia reagir a sua própria defesa, fechou os olhos e esperou cordialmente o que poderia lhe acometer. Após sentir o vento de algo passar sobre ele seguido por sons de passos, o Professor abriu os olhos e percebeu que Pedro havia saltado sobre o seu corpo caído e continuado a caminhar, sempre com um olhar que ele já havia visto antes, Pedro caminhou sob o olhar de remorso profundo do Professor, subiu na mesa do próprio Professor e colocou uma cadeira improvisada para lhe dar altura suficiente e num ato misto de equilíbrismo e sorte saltou e conseguiu arrancar o grande relógio de ponteiros que ficava acima do quadro negro e logo em seguida espatifar-lo no chão, jogando-o com toda a sua força

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