Arquivo do autor:Reflexos Inversos

Meditação em essência

Quem pode ter um espaço onde consiga trovoar sua solidão?

Quem ao acordar não encontra um resquício do outro? um tanto quanto de si, no outro?

Não há, se houver não há vida, passo que você é vida por existir o outro.

Mas espere, há um lugar. Feche o seus olhos e irá encontrar. É lá, é lá.

Onde encontrará aconchego na orquestra de sua respiração e do som do coração, que pulsa, e espera que as vezes o perceba, lá, tão calmo, e as vezes desesperado, por vida.

É no escuro que…. que escuro? nunca foi tão claro por quando estavas à olhar solenes luzes artificias, ou a impetuosa natural que incide sem ser chamada: a solar.

“Sem ela não há vida”, quem a chamou? Por que invade e insiste em dar o que não pediram a ela?
Quero sentir a minha vida. Quero completar o que eu sou, não quero transbordar por uma fonte inesgotável.
O tempo refluxa o sentindo. Conduz encontrar em reflexos o seu espaço. Na venda da luz encontrará a luminescência velada. Você não está aqui, nem lá. Sua voz transcende em presságios e espasmos daquilo que a memória não guardará.

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O Fim

Anseio,  destoando sem cor em um espaço de couraça alegórica
Letárgico, as cores vibram e se perdem, pois é calha do que é onírico
(…) é amigo…  o estorvo sempre se consagra

Um quiproquó em prelúdio expirado
Inspira, respira, enche os olhos de quem outrora seguiu o sagrado
Profanar o empírico jamais, no mais, seja menos

É pena, mas voa e volta
Pra ser entoado em júbilos
E baldar à baldes
Quem prostra em sua emposta


A praticidade do maniqueísmo

O rótulo sempre foi uma necessidade humana,  uma  racionalidade outorgada.  Instintivamente ao observar, abrangemos fatos e relacionamos ao desconhecido, pois vela-se o espanto e torna brando o insaturável. A complexidade é incerta, de teor extenuante, sem espaço pra comunicação lépida, crível, chafurdando o interlocutor – e consequentemente, fadando a esboços rasos,  de natureza similar. Se há como fugir?  sim, nas aptidões penosas de obliterar o instinto. Mas sensatez  traz  dignidade, e compactua a si mesmo o seu espelho.


Sapato

Passeando na poça, passo que o impermeável permeia empossado
Luto paro o cadafalso seguir isolado
desfaço o caso, descalço, pra ser inato
Inapto, escolhem os arautos dos exatos

Mas onde a chama, posto do que é plana a sede de flanar
Inflama e clama por fome de enredar
Torna pleno o entorno prolixo
O lixo seguido sem guizo pra guiar

Sento e sinto a nobreza da calçada
Calcada a levar a elevada premissa de gente omissa
Que insiste em te desprezar

Tal qual o ornejo que o ensejo se denota
Planejo e vejo o voltar que me invoca
Amarro o caso que calço por simples ato de sonhar


Entre – ter, sem – ter – tido

  

Reneé acordou mas não conseguiu abrir os olhos. Sentia-se extremamente exaurido. O silêncio reinava. Era como se estivesse flutuando no vácuo, perdido por entre o espaço e o tempo. A linha de seus sentidos estavam fracas, muito mais do que habitualmente se tem quando se desperta e também do tempo em que consterna até o retorno.

Reneé percebeu e tentou novamente sem êxito abrir os olhos. Sua pupila movimentava, era o álibi que findava a alusão que obtivera a estar em sonho e também o seu ponto de equilíbrio.

Sobre suas pálpebras sentiu atravessar luz. Percebeu que com a movimentação das pupilas esparsamente voltava os sentidos. Começou a ouvir vozes, muitas, distantes e ininteligíveis. A inconstância da percepção de sua coluna juntamente com a força do batimento de seu coração, demonstravam que estava deitado em algo sólido, áspero e quente, que nada lembrava a sua habitual cama ou algo parecido.

Aquele não era um dia normal “talvez eu esteja doente”, pensou, “e de quem são essas vozes? Tenho que levantar…”  Reneé tentou deslocar seu braço, mas sua força não era suficiente. Sentia como se estivesse aprisionado dentro de sí. Seus movimentos eram internos, como a angústia de um pássaro recém capturado de seu voo, de um peixe retirado do mar.  A liberdade retirada repentina se transforma em morte se houver contemplação.

Reneé sabia disso e também que sua obstinação e resiliência o faria ter a renitência necessária ao enredado ensejo. A inércia dos sentidos definhava-se com a com palpitação de sua angústia.

O gosto de fel no céu de sua boca e a acidez contínua em sua garganta, pressionaram para que abrisse a mesma,  juntamente em retaliação ao arfar de seus pulmões, que ostentava um de seus dias mais árduos.

Os sonidos de vozes ganharam coadjuvantes. Ouvia como se estivesse em um evento de protesto, onde sons homogeneízam em um tom ininteligível, único e original, que obtém dos estigmas sempre o que lhe é de dever.

Dentro daquela eufonia, Reneé inferiu um som, uma voz doce e aveludada que ao passo dentro do caos ia tomando corpo e forma. Era de uma mulher, 20 à 25 anos, que foi obliterada em razão da viscosidade que Reneé sentiu em sua camisa na região abdominal. Notou que ao respirar a impulsão fazia um pequeno confronto de temperatura de sua pele extremamente quente e úmida, com a da camisa de menor temperatura. Essa impulsão também o faria sentir escorrer pequenos filetes úmidos de seu abdomêm, como pequena sucção por pressão a cada expiração que fazia.

O mesmo filete sentiu descer por sua têmpora, tez e nuca, em um ritmo menor do que seu abdomêm “Isto não é suor”,  pensou,  “o que está acontecendo comigo?” Reneé começou a efervescer. Seus pensamento e sentidos entraram em um estado vulcânico. Todo o seu corpo começou a estremecer ansiando por espaço. A voz feminina estava cada vez mais próxima. O timbre acalantador postou renée a ouvir.

– Com licença… licença, ele precisa de espaço.

– Acalme – se, eu sei que pode me ouvir. Você é forte… aguente… falta pouco tempo pra que tudo isso acabe. Está chegando, está chegando a…

O tremor de seu corpo parou quando Reneé sentiu sobre sua mão um toque fraternal, de pele fina e macia como seda. Reneé agarrou aquela mão e seus sentidos e pensamentos explodiram. Como um ser aprisionado que compele à exaustão todas as suas forças contra saída e é surpreendentemente libertado, em susto e surto Reneé põe-se de pé em segundos.

As pessoas ao redor chocadas, entoam palavras de inexatidão. Alguns assustados deixam o local, outros, a maioria, deixam a maléfica curiosidade falar mais alto e postam-se a observar. Alguns até tiram fotos para guardarem aquele momento inimaginável.

Em pé, Reneé sente escorrer um pouco mais os filetes de sua cabeça. Não só pela têmpora e tez, como agora também por seu cabelo de médio comprimento, o que fez respigar sobre as mãos entrelaçadas. Reneé abre os olhos e a primeira imagem que vê diante do caos é a de Luana. Os cabelos loiros até os ombros, a pele de marfim e os olhos castanhos claros quase fizeram Reneé prostrar-se novamente. Levantou os braços que já estavam manchados, colocou sua mão entre o rosto e os cabelos de Luana, deixando uma pequena pintura sua naquele belíssimo quadro branco e disse:

– Obrigado por me libertar, se não fosse por você eu jamais conseguiria sozinho e não poderia fazer o que…

– Eu não fiz nada, por favor deite-se, a ambulância já está vindo. O senhor não está em condições de ficar em pé, olha só o que…

E Reneé a interrompeu com um beijo, longo e apaixonado. Nem mesmo o insolente gosto do que descia de sua cabeça e encontrava os lábios de ambos, a intimidação da multidão ao redor e suas reflexões atordoadas, os fizeram parar. Era como se os fluídos apaixonados construíssem um outro cenário, onde vozes se tornavam cânticos de pássaros e o asfalto, a grama de um perfeito jardim.

– Obrigado, disse Reneé e saiu em direção ao local do acidente.

No espaço de tempo em que Reneé estava em pé e abriu os olhos, tomou para si tudo o que havia acontecido anteriormente e como estava após. Sabia que o seu tempo estava se esvaindo e que talvez o seu corpo não suportasse o que pretendia fazer. Reneé não olhou para trás e continuou a andar. Sua perna esquerda já não mais obedecia e seus passos fazia encurvar sua coluna. Arrastava-se  e seu interior todo movia a cada encurvadura. Olhou para seu carro, viu o vidro dianteiro todo quebrado e pensou o quanto é difícil livrar-se de um costume, o seu era de não usar cinto de segurança.

Com extrema dificuldade conseguiu chegar ao local do acidente. Não foi ao seu carro, ao espanto de todos, e sim ao algoz, detentor e criador do caos. Um outro carro, que estava em partes – devido a força – com a dianteira fundida com a sua.

Reneé foi até a porta do passageiro, abriu e viu um senhor com idade entre 45 e 50 anos ao volante. Estava consciente e em estado de choque.

– Olá, disse Reneé, tossiu, limpou sua garganta  e cuspiu uma mistura de fluidos com textura e cor que nem ele mesmo saberia descrever

– Com licença…

Começou de certa forma a revistar aquele senhor, queria conhecer o seu algoz. Pegou sua carteira e viu que era um militar, sarcásticamente bateu continência e disse:

– Capitão, o senhor nunca mais irá tirar a liberdade de ninguém.

Reneé ouviu o capitão balbuciar de forma etílica e ininteligível algumas palavras e em seguida deu três tiros com a sua própria pistola 45 que achou junta a sua carteira, dois no seu peito e um no pescoço.

Após, pegou uma gafarra de whisky 20 anos estrangeiro, provavelmente escocesa, que estava jogada no carro do capitão e surpreendentemente ainda tinha dois dedos do líquido. Reneé sentou no asfalto, enconstou no carro, deu o ultimo gole no whisky, viu a imagem de Luana correndo em sua direção, com semblante de choro e desespero, sentiu sua visão escurecendo e finalmente pensou que poderia descansar e voltar a dormir naquele dia incomum.


Ventura embevecida

A alta dose de lirismo que recebi tão sincera e espelhada, não havia de contrapor a maneira que propunha, tornar me ébrio os sentidos. As referências lúridas de tão claras almas deu a fugaz solitude claustrofóbica do quarto de hotel que estou a sua real menção. Refaço e me distraio pelo fluxo que o ensejo se faz. O tempo tão desfocado e efêmero de outrora jaz agora robusto e intimidador, não o culpo, ele é regente de espaço construído por modelo fora de seu corpo. Ele sempre será a vítima de seu sequestro.

Enquanto espero a abertura dos caminhos dos viajantes do proletariado, ouço a orquestrada sinfonia de murmúrios de paredes vizinhas tão enigmáticas quanto o negrume dos rostos na rua que olho pela janela abaixo, em que minutos atrás foram ainda mais pela aproximação.

O café se faz presente ao invés do álcool. Sei de quanto os dois conseguem regozijar ao ponto de acalorar o ânimo e embair o sono, mas recebi a dose suficiente de arte que inebriou minha mente para poder suportar a do álcool, que ainda insiste em ter a companhia para fazer valer completamente o seu efeito.

E foi se horas e já é dia claro. A movimentação dos moradores de rua de pontos onde é passagem, indica o motivo do enclaustro de seu ostracismo e a aurora que inicia. Eu por hora pego meu último café, extasiado e pulsante ainda, passo por mim e termino uma noite bela.

Quando se remete a resistência
O passo segue sozinho
A verdade se concentra em revelar a frivolidade
A veemência do descaso
A leitura desalinhada reverbera em círculos
E transforma o ensejo o teu âmago perdido


Chuva

Passa, seca, ao passo que se esvai

Entre os impasses se consolida

A retilíneidade luta contra sí em seu declínio

Soberbamente, varia a praxe

 

É finita presa ao toque  de sua lápide incolor

Abraça o colo que não toca no leito da calmaria

Soluto na resignação  da salubridade

Encontra o deleite fúnebre de seu espelho

 

A soada plácida, torna-te o trovejo onde forram o teu berço

Espero-te com esmero

Por sede

De minh’alma