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Entre – ter, sem – ter – tido

  

Reneé acordou mas não conseguiu abrir os olhos. Sentia-se extremamente exaurido. O silêncio reinava. Era como se estivesse flutuando no vácuo, perdido por entre o espaço e o tempo. A linha de seus sentidos estavam fracas, muito mais do que habitualmente se tem quando se desperta e também do tempo em que consterna até o retorno.

Reneé percebeu e tentou novamente sem êxito abrir os olhos. Sua pupila movimentava, era o álibi que findava a alusão que obtivera a estar em sonho e também o seu ponto de equilíbrio.

Sobre suas pálpebras sentiu atravessar luz. Percebeu que com a movimentação das pupilas esparsamente voltava os sentidos. Começou a ouvir vozes, muitas, distantes e ininteligíveis. A inconstância da percepção de sua coluna juntamente com a força do batimento de seu coração, demonstravam que estava deitado em algo sólido, áspero e quente, que nada lembrava a sua habitual cama ou algo parecido.

Aquele não era um dia normal “talvez eu esteja doente”, pensou, “e de quem são essas vozes? Tenho que levantar…”  Reneé tentou deslocar seu braço, mas sua força não era suficiente. Sentia como se estivesse aprisionado dentro de sí. Seus movimentos eram internos, como a angústia de um pássaro recém capturado de seu voo, de um peixe retirado do mar.  A liberdade retirada repentina se transforma em morte se houver contemplação.

Reneé sabia disso e também que sua obstinação e resiliência o faria ter a renitência necessária ao enredado ensejo. A inércia dos sentidos definhava-se com a com palpitação de sua angústia.

O gosto de fel no céu de sua boca e a acidez contínua em sua garganta, pressionaram para que abrisse a mesma,  juntamente em retaliação ao arfar de seus pulmões, que ostentava um de seus dias mais árduos.

Os sonidos de vozes ganharam coadjuvantes. Ouvia como se estivesse em um evento de protesto, onde sons homogeneízam em um tom ininteligível, único e original, que obtém dos estigmas sempre o que lhe é de dever.

Dentro daquela eufonia, Reneé inferiu um som, uma voz doce e aveludada que ao passo dentro do caos ia tomando corpo e forma. Era de uma mulher, 20 à 25 anos, que foi obliterada em razão da viscosidade que Reneé sentiu em sua camisa na região abdominal. Notou que ao respirar a impulsão fazia um pequeno confronto de temperatura de sua pele extremamente quente e úmida, com a da camisa de menor temperatura. Essa impulsão também o faria sentir escorrer pequenos filetes úmidos de seu abdomêm, como pequena sucção por pressão a cada expiração que fazia.

O mesmo filete sentiu descer por sua têmpora, tez e nuca, em um ritmo menor do que seu abdomêm “Isto não é suor”,  pensou,  “o que está acontecendo comigo?” Reneé começou a efervescer. Seus pensamento e sentidos entraram em um estado vulcânico. Todo o seu corpo começou a estremecer ansiando por espaço. A voz feminina estava cada vez mais próxima. O timbre acalantador postou renée a ouvir.

– Com licença… licença, ele precisa de espaço.

– Acalme – se, eu sei que pode me ouvir. Você é forte… aguente… falta pouco tempo pra que tudo isso acabe. Está chegando, está chegando a…

O tremor de seu corpo parou quando Reneé sentiu sobre sua mão um toque fraternal, de pele fina e macia como seda. Reneé agarrou aquela mão e seus sentidos e pensamentos explodiram. Como um ser aprisionado que compele à exaustão todas as suas forças contra saída e é surpreendentemente libertado, em susto e surto Reneé põe-se de pé em segundos.

As pessoas ao redor chocadas, entoam palavras de inexatidão. Alguns assustados deixam o local, outros, a maioria, deixam a maléfica curiosidade falar mais alto e postam-se a observar. Alguns até tiram fotos para guardarem aquele momento inimaginável.

Em pé, Reneé sente escorrer um pouco mais os filetes de sua cabeça. Não só pela têmpora e tez, como agora também por seu cabelo de médio comprimento, o que fez respigar sobre as mãos entrelaçadas. Reneé abre os olhos e a primeira imagem que vê diante do caos é a de Luana. Os cabelos loiros até os ombros, a pele de marfim e os olhos castanhos claros quase fizeram Reneé prostrar-se novamente. Levantou os braços que já estavam manchados, colocou sua mão entre o rosto e os cabelos de Luana, deixando uma pequena pintura sua naquele belíssimo quadro branco e disse:

– Obrigado por me libertar, se não fosse por você eu jamais conseguiria sozinho e não poderia fazer o que…

– Eu não fiz nada, por favor deite-se, a ambulância já está vindo. O senhor não está em condições de ficar em pé, olha só o que…

E Reneé a interrompeu com um beijo, longo e apaixonado. Nem mesmo o insolente gosto do que descia de sua cabeça e encontrava os lábios de ambos, a intimidação da multidão ao redor e suas reflexões atordoadas, os fizeram parar. Era como se os fluídos apaixonados construíssem um outro cenário, onde vozes se tornavam cânticos de pássaros e o asfalto, a grama de um perfeito jardim.

– Obrigado, disse Reneé e saiu em direção ao local do acidente.

No espaço de tempo em que Reneé estava em pé e abriu os olhos, tomou para si tudo o que havia acontecido anteriormente e como estava após. Sabia que o seu tempo estava se esvaindo e que talvez o seu corpo não suportasse o que pretendia fazer. Reneé não olhou para trás e continuou a andar. Sua perna esquerda já não mais obedecia e seus passos fazia encurvar sua coluna. Arrastava-se  e seu interior todo movia a cada encurvadura. Olhou para seu carro, viu o vidro dianteiro todo quebrado e pensou o quanto é difícil livrar-se de um costume, o seu era de não usar cinto de segurança.

Com extrema dificuldade conseguiu chegar ao local do acidente. Não foi ao seu carro, ao espanto de todos, e sim ao algoz, detentor e criador do caos. Um outro carro, que estava em partes – devido a força – com a dianteira fundida com a sua.

Reneé foi até a porta do passageiro, abriu e viu um senhor com idade entre 45 e 50 anos ao volante. Estava consciente e em estado de choque.

– Olá, disse Reneé, tossiu, limpou sua garganta  e cuspiu uma mistura de fluidos com textura e cor que nem ele mesmo saberia descrever

– Com licença…

Começou de certa forma a revistar aquele senhor, queria conhecer o seu algoz. Pegou sua carteira e viu que era um militar, sarcásticamente bateu continência e disse:

– Capitão, o senhor nunca mais irá tirar a liberdade de ninguém.

Reneé ouviu o capitão balbuciar de forma etílica e ininteligível algumas palavras e em seguida deu três tiros com a sua própria pistola 45 que achou junta a sua carteira, dois no seu peito e um no pescoço.

Após, pegou uma gafarra de whisky 20 anos estrangeiro, provavelmente escocesa, que estava jogada no carro do capitão e surpreendentemente ainda tinha dois dedos do líquido. Reneé sentou no asfalto, enconstou no carro, deu o ultimo gole no whisky, viu a imagem de Luana correndo em sua direção, com semblante de choro e desespero, sentiu sua visão escurecendo e finalmente pensou que poderia descansar e voltar a dormir naquele dia incomum.

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Marta

Marta estava esperando havia 35 anos, olhava para o esmalte vermelho corroído de suas unhas como forma de pena ao trabalho desperdiçado. As formas assimétricas de seus dedos elevava o nível de conhecimento para que findasse uma boa coloração, e Marta estava a ser uma estagiária na causa,  pouco lhe sucedia o hábito de promover o direcionamento induzido a beleza, se sentia bela e era adepta ao funcionalismo da atração desvirtuada, mas hoje fizera uma excepção, seus cabelos negros de médio comprimento tinham ganhado um penteado casto e ao mesmo tempo tórpido, escolhera o seu casual echarpe e seu vestido cinza flutuante o que deixava-a com uma leveza sórdida.
Naquele dia sua sucinta rotina de ir ao parque no mesmo quarteirão de sua casa, sentar ao banco, olhar para horizonte, contemplar o seu cigarro e apenas esperar… não havia mudado, a não ser pela indumentária e agora pelos olhares questionadores de seus coadjuvantes do local. Marta havia pressentido em sonho que hoje seria o grande dia que sempre houvera de imaginar e que regia seus atos por muitas vezes inescrupulosos, mas por ela vistas sempre como consequências da utopia em que se imergia.
O rodear de folhas secas ao seus sapatos, caídas da oliveira, concomitava com o vermelho céu do fim de tarde, prenunciando a noite que era amada por ela. Gostava de admirar a transição de movimentos que proporcionava, da simetria perfeita onde as estrelas completava ao céu antes mesmo da protagonista maior aparecer, pensava ela que as faziam isso para tentar conquistar admiradores que sempre as idolatravam e as traía quando a “outra” chegava. Ao pegar um cigarro em sua bolsa dar a primeira tragada, um senhor de bigode cinza-amarelado, roupa azul com um brasão à costura em seu peito, surpreendeu-a dizendo:

– Senhora, iremos fechar…

Ao ver aquelas rugas em sua testa, Marta o reconhecera, era o zelador do parque, e respondeu de modo esparso.

– Sim sim, já estou me retirando.

O velho também a reconhecera, sempre fitava-a sentada ao mesmo banco verde-musgo e sentia um misto de pena e impugnação, mas não havia com ele a intrepidez para sanar suas alusões a ela, hoje porém, com esta excepção, se sentiu um pouco magnetizado pelas feições e indumentárias da senhora e resolvera lhe dizer esta anunciação.
Após ouvir de Marta mais algumas justificativas rápidas e confusas o senhor virou-se  e continuou o caminho de volta e ao meio do caminho olhou novamente, vistes suas mãos elevadas rentes ao buço, trazendo consigo um cilindro pequeno, com a ponta manchada pelo batom de sua boca, que a mesma sugou, inspirou e soltou uma névoa que desapareceu em instantes em homogeneização com o ar.
A saída do senhor deixou-a um pouco mais sóbria do tempo, mas não diminui sua obstinação, aliás, sentiu-se aliviada por ter se livrado daquele que poderia embaraçar sua estadia e acabar com sua bela e querida noite. Pouco a pouco Marta viu o dispersar de todos, crianças com suas manias hiperativas, senhoras com seus livros, jovens com seus respectivos jovens, todos aos poucos iam passando e a medida que se distanciavam se turvavam sendo absorvidos pela sombra. O silêncio começava a avultar, expandia das extremidades escuras, passava pelo sopro de Marta e morria no bulício de insetos. Já não se via nenhum movimento, a não ser o subir e levantar de mãos suas, pequenos vultos de pássaros e folhas desprendendo-se.
Havia se passado tempo, mas não era adepta de levar marcadores consigo, mas pouco se importara, estava obstinada a ficar. Eram aos passos de a lua ter o seu brilho mais inebriante, quando eclodiu daquele silêncio quase absoluto, uma eufonia de quebras de folhas secas vindo da extremidade do parque, Marta fitou a silhueta distorcida pela sombra, não parecia ser a de um animal e ao perceber a humana, estremeceu de ansiedade. Continuava a observar a sombra e a medida que se aproximava tornava se mais nítida, era robusta e caminhava a sua direção, pegou o seu cigarro e acendeu.

Era um misto de pávidez e luzes, sua mente transfigurava informações em distorções extremamente rápidas, mas já havia tempo as dominavas por rotina. Viste algo diferente naquele dia, algo que a distância lhe parecia belo, foste a caminho daquele ser iluminado pela lua e com uma espécie de sinalizador aceso em suas mãos o que também o ajudou. Caminhava vertiginosamente, aos pequenos tropeços controlados, ao se aproximar, controlava-se mais, e ao ver nitidamente percebera que não fostes em vão, confirmou que era soberano em sua mente e nada havia de lhe toma-lá e Perguntou:

– O que faz uma senhora tão bonita estas horas neste lugar?

–  Estava te esperando…

O moço se sentiu atordoado pela resposta e retorquiu sofismando

– Acho que a sombra deve estar por enganar-te, a senhora não me conhece…
– Sim, mas estava te esperando…

O silêncio os engoliu por alguns segundos… os olhos do rapaz estava em ligeira movimentação, mas focou-se nos dela. Pensou que neste momento era  propício para denotar a sua ação, colocou a mão no bolso a procura de seu álibi, ao se aproximar dela fora interrompido segundos antes…

– Sempre houve de esperar por este momento, dias após dias, ilusão após ilusão, não entendia como o ensejo demoraste tanto… mas hoje vejo que era necessário.

O rapaz cada vez mais se sentia atordoado com as palavras de Marta. Sentia sua têmpora pulsar descompassada, a distância da realidade lhe parecia mais próxima, soltou o objeto de seu bolso e disse com o tom de voz mais alto e movimentando os braços ligeiramente:

– Eu já lhe disse que não sou quem a senhora pensa!!

Marta ao mesmo tom e destemida completou:

– Você é e sempre foi! Não há de ser eterna essa minha aflição. Eu sei que você  também vagou deveras sem fé, a dor que carregas eu também carrego, o ímpeto impulsionado pelo irracional, a mágoa que impera a cada ato, o ardor da incerteza que nunca desistirá! Eu te conheço como a sua própria alma, vivi dentro de você como você vive dentro de mim! Sei que também nunca desistiu, por isso hoje está aqui, me esperava… pois bem, estou aqui.

O rapaz sentira algo que jamais havia sentido antes, as palavras de Marta haviam cruzado o espaço do discernimento, era como se ele esperasse a vida toda como ela por aquele momento. Dizia a si mesmo  tudo o que ouvira de Marta em voz baixa enquanto ouvia os gritos e sentias os espasmos de suas vítimas, o seu corpo estava em êxtase, e como seda colocada em mãos abertas, escorreu e tocou o joelho ao solo em prantos. Chorava copiosamente,  exorcizando seus demônios em lágrimas, soluçava alto buscando o ar que parecia lhe sumir, seu corpo inteiro gritava, estremecia de maneira contínua e incessante. Sentiu por cima de sua cabeça molhada de suor a mão de Marta tocando-o de uma forma afetuosa, levantou a cabeça e fitou-a de forma terna e confusa. Marta segurou em seu rosto com seu cigarro entre os dedos, e disse:

– Está tudo bem agora, pra eternidade iremos por este laço agora findado.

O rapaz não respondeu, com dificuldades moveu o seu braço para trás a procurar em seu bolso o êxodo que o traria em liberdade. Enquanto Marta segurava em teu rosto, colocou suas mãos na tesoura, puxou-a e cortou o laço, como a inauguração de uma grande obra que sempre esteve adormecida dentro de si.


Razão insólita

Eram 13:45, as batidas sutis do lápis, porém contínuas do Professor em sua mesa,  delatava toda a agonia que lhe afligia, seu desejo de que o silêncio se fechasse e prolongasse ele já havia conquistado, afinal todos esses anos no ensino letivo,havia dado experiência suficiente para conhecer todas as faculdades e artmanhas de suas “peças de trabalho” e consequentemente o caminho para que eles se sustentassem em silêncio, a sala de aula sempre foi o lugar de seu absoluto domínio, isso só era capaz devido a afirmação que isso tinha em sua mente, mas o tempo ele não havia de controlar, talvez por isso naquele dia se sentia frágil, a agonia do tempo se expandia pelo calor insuportável dos longos dias ensolarados do verão, e que era traduzidos pela gota de suor que involuntariamente escorria pelo antebraço de Pedro Augusto, até chegar em seu cotovelo e pingar no seu caderno pouco rasurado.      A escola sempre foi o grande desafio de Pedro, como qualquer criança de 8 anos o que mais lhe dispersava de concentração era o que mais lhe deixava feliz e numa infeliz coincidência também o afastava de qualquer problema. Pedro estava de cabeça baixa e recostada no braço que estava sob o caderno em sua carteira, lembrando aqueles alunos que estão preocupados em definhar o seu sono não se importando o lugar onde estão, mas não era o caso de Pedro. Por causa do extremo calor daquele dia Pedro havia se concentrado nele e sabia se levantasse a cabeça poderia acontecer o que ele sempre lutava contra, apesar que para o Professor e para todos o seus coleguinhas isso já não seria novidade, pois a grande maioria dos alunos da 3º série onde Pedro estava, eram os mesmos da série anterior, e o Professor também já havia sido orientado para qualquer ocasionalidade, mas Pedro sempre lutava, pois não gostava de ser sentir o alvo de olhares retenciosos a sua alienação preso no invólucro de seu algoz.
As janelas já abertas não amenizavam a insistência do calor, mas era a única alternativa, se não fosse a extrema intransigência do Professor, que mesmo com qualquer adversidade não entregava o pleito do magistério as trepidações da desordem, tinha consigo uma convicção inabalável que muitas vezes arruinavam as dúvidas didáticas de seus alunos, os convenciam que não haviam sequer um lapso para o desentendimento de seu impecável trabalho, ou não faziam por medo de se tornarem chacota para sua sala e as vezes para grande parte da escola.
Com a conclusão da revisão do trabalho de seus alunos, sempre sob um olhar muito crítico, o Professor fecha a sua cardeneta de notas bimestrais, e volta o olhar para a sala, mesmo com o silêncio, ele era imponente, pois sabia que algum incidente poderia acarretar o fim dele, e não era o que ele desejava, olhou para todos que estavam ali e com o olhar de uma águia, viu Pedro que estava a sua esquerda, na fileira ao lado da parede. exatamente atrás de quatro alunos e viu nele uma ameaça, pois era único que estava de cabeça baixa recostada nos braços e disse sem se importar com a cena.

-Pedro volte a fazer o seu dever!.

A voz ecoou naquele silêncio e chegou a Pedro, tomando-lhe qualquer resquício de força para lutar contra transgreção de sua mente.

– Pedro! você não me ouviu? disse o Professor insistente e mais alto

Vagarosamente e já com o olhar disperso e concentrado, Pedro levanta não só a cabeça, mas também de sua cadeira e diz:

-Isso não pode mais acontecer!

Naquele momento todos os olhares que estavam no professor se voltaram para Pedro

-Como disse? – Pegunta o Professor

-Vocês estão vendo o que ele faz conosco? Todo esse calor que estamos passando, sem sequer tomar agua, é culpa dele!

O que ele esta fazendo? – Pensou pasmo o Professor.

-Vocês gostam de apanhar do Pai, da Mãe, quando não obedecem ele? de ficar de castigo, sem video-game, sem tv…

Nenhuma das indagações de Pedro eram respondidas, mas todos estavam concordando e admirando silenciosamente aquela revolução.

-Por causa dele temos que parar de brincar pra fazer lição, pra dormir, pra acordar cedo! Não podemos mais aceitar isso.

-É isso mesmo! – disse Carlos.

Carlos era um aluno de 12 anos, repetente, que não se dava bem com o aprendizado didático pois os da rua ja lhe tomavam bastante tempo, tinha a predileção do professor para a repreensão, como forma de compactuar a todos com o seu exemplo.

-Se nós acarbarmos com ele ficaremos livres! Não ficaremos mais de castigo, não levaremos bronca do nossos pais, iremos brincar a hora que quisermos sem se preocuparmos e nem precisaremos voltar mais aqui!!
O Professor a esse ponto tinha deixado de encarar Pedro como uma ameaça ao silêncio  colocando ao posto de anarquista, levantou de sua mesa e foi em sua direção. Pedro continuou com seu discuro
-Mas eu não posso conseguir isso sozinho, eu preciso da ajuda de vocês, quem vai me ajudar?- Disse Pedro sempre olhando para seu algoz
Percebendo a concentração de todos, o Professor a passos largos chegou a Pedro e ficou parado bem próximo a ele e disse com a mão ligeiramente suspensa e muito agitada

-O que você pensa que está fazendo, meu rapazinho? Você esqueceu onde está? Onde está querendo chegar com esse discurso? Saiba que você irá pagar muito caro por ele! Todos iram saber dessa infâmia que fez hoje aqui! Tenho que levá-lo imediatamente na diretoria!
O professor se pusera a livrar-se rapidamente daquela situação, pegou firmemente no punho de Pedro e continuou
-Vamos! você irá se arrepender por essa…
-Solte ele seu babaca!
O Professor não obteve chance de ver onde vinha aquele insulto… antes de se virar  ele sentiu um forte golpe que ao mesmo tempo o atingiu nas costas e na nuca o  nocauteando e tambem em consequência, empurrando Pedro que estava a sua frente, que pelo peso do corpo do mestre, não obteve equilíbrio e tambem tombou-se
-Não pode ter sido um aluno – Pensou o Professor no meio tempo antes de quase perder os sentidos
E ele estava quase certo sobre isso, qualquer aluno daquela série não obtinha força suficientes em punho para derrubar um homem de 45 anos, saudável, Carlos havia tomado pra sí o discurso de Pedro, acreditando piamente nele, ou visto ali a sua grande oportunidade de se vingar, Carlos levantou de sua mesa trazendo consigo sua cadeira, quando o Professor pegou no punho de Pedro, arremeçou-la.
Somente o professor não havia percebido a movimentação de Carlos, os olhares da sala  havia se dividido em audição e visão, com os gritos do Professor e o caminhar de Carlos, e como num filme de suspense observaram atônitos até o seu derradeiro fim, mas curiosamente não tentaram avisar a vítima sobre o seu malfeitor.
Com a queda do Professor e de Pedro, houve um sentimento mútuo de desespero entre os alunos, que após a cena saíram  rapidamente da sala aos tropeços, logo após de Carlos obviamente, que foi o primeiro a sair, e em alguns segundos todos se evacuaram, Pedro estava caído a 2 metros do Professor mas pouco sofrera pela queda, e após 2 minutos já estava em pé novamente e ainda decidido a findar o seu objetivo
-Droga! assim será mais difícil, mas eu posso fazer sozinho.
O Professor estava caído, debruçado sobre o chão quente de madeira de cor carvalho, estava consciente, porém impossibilitado de se mover pela dor que o afligia, ouviu as palavras de Pedro sobre que haveria de concluir de qualquer maneira, estava muito debilitado e não poderia reagir a sua própria defesa, fechou os olhos e esperou cordialmente o que poderia lhe acometer. Após sentir o vento de algo passar sobre ele seguido por sons de passos, o Professor abriu os olhos e percebeu que Pedro havia saltado sobre o seu corpo caído e continuado a caminhar, sempre com um olhar que ele já havia visto antes, Pedro caminhou sob o olhar de remorso profundo do Professor, subiu na mesa do próprio Professor e colocou uma cadeira improvisada para lhe dar altura suficiente e num ato misto de equilíbrismo e sorte saltou e conseguiu arrancar o grande relógio de ponteiros que ficava acima do quadro negro e logo em seguida espatifar-lo no chão, jogando-o com toda a sua força


Inconstitucionalista

Era uma fria e longa tarde de outono. O olhar contemplativo e incessante de Marcos ao horizonte, condizia ao de uma pessoa soberba, dessas que somente o olhar já transfere a aversão de uma suposta aproximação. Essa definição caberia a qualquer ângulo da pessoa que é vista desta maneira, mas não tão somente cabe a definição. O olhar de Marcos tinha mais profundidade, era desafiador. Não contra paisagem que lhe envolvia,  pois  harmonizava suntuosamente com o som do vento levantando e quebrando as folhas secas da sua estimada oliveira. Num combinar de movimentos que lembraria as tediosas horas que sua mulher o obrigava á acompanhar em seus espetáculos de ballet clássico.
Era um olhar intimista para si mesmo, para suas próprias inseguranças, que foram impostas num delinear de contravenções politicas e que lhe condizia, pois era de seu ofício e também de sua obrigação. Marcos sabia que isto iria acontecer, e que todo esse tempo de ensaios não era em vão. Só não esperava que todo esse caos psicológico se abrandasse com essa visão melancólica de sua janela, e ainda lhe inflasse com toda a confiabilidade que era necessária naquele dia.
-O que tanto admira nessa janela meu amor – pergunta a sua mulher.
Marcos num súbito despertar volta para sua inoportuna e necessária realidade, se sentindo extremamente reconfortado e reestruturado para revelar o seu algoz.
– Vou ter que partir…
Como essas poucas e árduas palavras eram difíceis de se dizer! O peso que carregava era maior do que Marcos já as considerava,  traziam a frustração dos seus anos de otimismo que tanto enfatuava em seus planos de felicidade.
Esse mútuo pensamento persistia ainda mais em sua mulher, o que fez com que essa frase dissipasse toda a sua serenidade, fazendo-a mergulhar num mar de inseguranças.
-Eu não quero que você vá! – disse ela com a voz trêmula.
-Mas eles precisam de mim, não posso desertar de meu ofício.
-Eles precisam da honra da sua morte! Eu preciso mais!…  Não quero ser torturada pela sua ausência. Não quero sonhar com o quão maravilhosa será a sua volta. Quero ter, viver e sentir a sua presença – Disse a esposa, colocando a mão no rosto e sentindo escorrer em seus pulsos as lágrimas.
Toda a tranquilidade e imparcialidade de Marcos foram tomadas pelas palavras de sua mulher. Ele sentiu-se invadido por todas as inseguranças dela que eram maiores que as suas. Marcos se sentia culpado por isso, e de alguma forma queria conforta-la, mas não sabia e também não poderia. Ambos já previam que isto iria acontecer só lutavam para estender o tempo por fim desse dia não chegar. Abraçou-a e disse:
– Não importa o que acontecer ou irei fazer, você sempre será o meu objetivo… Eu irei voltar.
Esta seria a mais inoportuna ouvida frase durante aquele período naquele país. Como que com ela estreitassem os laços entre o retirante e pessoa que os deixa. Como se a promessa deixasse inóspito a notificação de sua quebra.
O dinamismo do foco era venerado em seu ofício. Marcos sabia e assim o fazia, mas a sua involuntariedade as vezes se sobressaía.
-Sgt Marcos! Sgt Marcos! Senhor!! Sgt Ma…
O som de algo cortando o vento, seguido de um estalo muito seco havia abruptamente calado aquele soldado, mas a sua intenção havia se completado. Marcos o ouviu e se pegou preso em sua viagem introspectiva, perdido em seus próprios pensamentos. Em qualquer outro lugar essa ação seria motivo de eterna gratidão, mas ali onde se encontravam, tornava-se mais uma motivação para continuar a campanha do ódio. Marcos não conseguiu entender como ele havia lhe deixado tanto se entumecer pelas suas memórias ao ponto de se transportar a ela. Seria o incomensurável amor que sentia por sua mulher? Seria o medo infligido pelo mesmo?  Marcos não sabia, mas isso o fez refletir que todos ali também tinham os seus “incomensuráveis amores”. Que o soldado o tinha, e que aqueles que lhe desejavam a ruína também. A ausência de sentimentos sempre foram tópicos de extrema frequência nos discursos de seus finórios superiores e era referência intocável para Marcos, até aquele momento.
Marcos havia renegado por certo tempo ao sentimento que havia deixado inerte, mas todavia não tinha se desfeito dele. Por mais que assim o quiseste não o conseguia. Aquilo o  havia desventurado. Mesmo consciente, deixava espasmos em sua lembrança querendo lhe tomar por inteiro,  desvirtuando-o, o deixando involuntário. O oficio já não lhe regrava mais.
Tirou o suntuoso fuzil de seus ombros que apontava  para a linha de trovejos incessantes a sua frente, abaixou-o até a base de sua cintura, olhou para seus companheiros, mas não disse nada. Respirou fundo e deixou-se flutuar por aqueles pensamentos. Pulou a trincheira que estava a sua frente com dificuldades, por ventura da altura e arames farpados que meramente os sentiu, e seguiu para o horizonte que tanto o chamava.
-Olha! para onde ele está indo? Perguntou o recruta para seu outro companheiro
-Oh não,meu deus…
-Senhor!! – Gritou o soldado
-Não se preocupe soldado – Respondeu Marcos – eu estou indo para o meu objetivo…
E assim o fez. Segurando o seu fuzil, Marcos caminhou por entre o centro do embate, seguido pelos olhares atônitos de seus companheiros que tiveram a honra de observar o desfecho da grande glória da humanização de um homem, em sua pura e simples forma paradoxal.