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A praticidade do maniqueísmo

O rótulo sempre foi uma necessidade humana,  uma  racionalidade outorgada.  Instintivamente ao observar, abrangemos fatos e relacionamos ao desconhecido, pois vela-se o espanto e torna brando o insaturável. A complexidade é incerta, de teor extenuante, sem espaço pra comunicação lépida, crível, chafurdando o interlocutor – e consequentemente, fadando a esboços rasos,  de natureza similar. Se há como fugir?  sim, nas aptidões penosas de obliterar o instinto. Mas sensatez  traz  dignidade, e compactua a si mesmo o seu espelho.


Ventura embevecida

A alta dose de lirismo que recebi tão sincera e espelhada, não havia de contrapor a maneira que propunha, tornar me ébrio os sentidos. As referências lúridas de tão claras almas deu a fugaz solitude claustrofóbica do quarto de hotel que estou a sua real menção. Refaço e me distraio pelo fluxo que o ensejo se faz. O tempo tão desfocado e efêmero de outrora jaz agora robusto e intimidador, não o culpo, ele é regente de espaço construído por modelo fora de seu corpo. Ele sempre será a vítima de seu sequestro.

Enquanto espero a abertura dos caminhos dos viajantes do proletariado, ouço a orquestrada sinfonia de murmúrios de paredes vizinhas tão enigmáticas quanto o negrume dos rostos na rua que olho pela janela abaixo, em que minutos atrás foram ainda mais pela aproximação.

O café se faz presente ao invés do álcool. Sei de quanto os dois conseguem regozijar ao ponto de acalorar o ânimo e embair o sono, mas recebi a dose suficiente de arte que inebriou minha mente para poder suportar a do álcool, que ainda insiste em ter a companhia para fazer valer completamente o seu efeito.

E foi se horas e já é dia claro. A movimentação dos moradores de rua de pontos onde é passagem, indica o motivo do enclaustro de seu ostracismo e a aurora que inicia. Eu por hora pego meu último café, extasiado e pulsante ainda, passo por mim e termino uma noite bela.

Quando se remete a resistência
O passo segue sozinho
A verdade se concentra em revelar a frivolidade
A veemência do descaso
A leitura desalinhada reverbera em círculos
E transforma o ensejo o teu âmago perdido


São cinzas, Paulo

Correndo entre marginais levando seus putrefatos excedentes, Paulo confina o stress em sua estática concentração. O filme queima, o condicionamento refluxa sua expiração, golfeja  poeira para a laringe, Paulo desiste, desce o filme, Clareia CO2 em seu pulmão, bela morada, e continua sua pausada procissão.

Chega ao cemitério das almas, senta em seu flexível trono, olha para a destinada alienadora, se entrega, deixa lhe sorver até a sua completa aridez, pois é obstinado, o exemplar consolida-se.

Esvai- se rápido o dia, a vaidade não se atrita a labuta quando se necessita dela a noite.

Paulo marcha, incita a confraternização complacente, desce só, alegra-se pois já está trajado à referência e tudo será prático. Passa o arco, pisa no piche seco e  já ouve os trovejos de vozes e carros maiores que qualquer monotonia semanal, olha para as outras almas agitadas rotineiras, e vai lograr seu objetivo. A salinidade dos dias saliva seu ego, sobeja ânsias em sua aglomerações, Paulo entra em seu templo, olha seus irmãos que os ignora com respeito, pede seu líquido social, que o entorna repetidas vezes, o que o incide a se tornar repetidas vezes.

Espera o respaldo, demora, mas vem. Levanta, reclina-se à pegar seu terno maço, se retira, destina se ao enclaustro, sobe o filme, devaneia aos passos, sente o vento correr mais rápido, chega, enegrece o fastio, despe-se, mortifica-se, esta são e cinza Paulo.