Inconstitucionalista

Era uma fria e longa tarde de outono. O olhar contemplativo e incessante de Marcos ao horizonte, condizia ao de uma pessoa soberba, dessas que somente o olhar já transfere a aversão de uma suposta aproximação. Essa definição caberia a qualquer ângulo da pessoa que é vista desta maneira, mas não tão somente cabe a definição. O olhar de Marcos tinha mais profundidade, era desafiador. Não contra paisagem que lhe envolvia,  pois  harmonizava suntuosamente com o som do vento levantando e quebrando as folhas secas da sua estimada oliveira. Num combinar de movimentos que lembraria as tediosas horas que sua mulher o obrigava á acompanhar em seus espetáculos de ballet clássico.
Era um olhar intimista para si mesmo, para suas próprias inseguranças, que foram impostas num delinear de contravenções politicas e que lhe condizia, pois era de seu ofício e também de sua obrigação. Marcos sabia que isto iria acontecer, e que todo esse tempo de ensaios não era em vão. Só não esperava que todo esse caos psicológico se abrandasse com essa visão melancólica de sua janela, e ainda lhe inflasse com toda a confiabilidade que era necessária naquele dia.
-O que tanto admira nessa janela meu amor – pergunta a sua mulher.
Marcos num súbito despertar volta para sua inoportuna e necessária realidade, se sentindo extremamente reconfortado e reestruturado para revelar o seu algoz.
– Vou ter que partir…
Como essas poucas e árduas palavras eram difíceis de se dizer! O peso que carregava era maior do que Marcos já as considerava,  traziam a frustração dos seus anos de otimismo que tanto enfatuava em seus planos de felicidade.
Esse mútuo pensamento persistia ainda mais em sua mulher, o que fez com que essa frase dissipasse toda a sua serenidade, fazendo-a mergulhar num mar de inseguranças.
-Eu não quero que você vá! – disse ela com a voz trêmula.
-Mas eles precisam de mim, não posso desertar de meu ofício.
-Eles precisam da honra da sua morte! Eu preciso mais!…  Não quero ser torturada pela sua ausência. Não quero sonhar com o quão maravilhosa será a sua volta. Quero ter, viver e sentir a sua presença – Disse a esposa, colocando a mão no rosto e sentindo escorrer em seus pulsos as lágrimas.
Toda a tranquilidade e imparcialidade de Marcos foram tomadas pelas palavras de sua mulher. Ele sentiu-se invadido por todas as inseguranças dela que eram maiores que as suas. Marcos se sentia culpado por isso, e de alguma forma queria conforta-la, mas não sabia e também não poderia. Ambos já previam que isto iria acontecer só lutavam para estender o tempo por fim desse dia não chegar. Abraçou-a e disse:
– Não importa o que acontecer ou irei fazer, você sempre será o meu objetivo… Eu irei voltar.
Esta seria a mais inoportuna ouvida frase durante aquele período naquele país. Como que com ela estreitassem os laços entre o retirante e pessoa que os deixa. Como se a promessa deixasse inóspito a notificação de sua quebra.
O dinamismo do foco era venerado em seu ofício. Marcos sabia e assim o fazia, mas a sua involuntariedade as vezes se sobressaía.
-Sgt Marcos! Sgt Marcos! Senhor!! Sgt Ma…
O som de algo cortando o vento, seguido de um estalo muito seco havia abruptamente calado aquele soldado, mas a sua intenção havia se completado. Marcos o ouviu e se pegou preso em sua viagem introspectiva, perdido em seus próprios pensamentos. Em qualquer outro lugar essa ação seria motivo de eterna gratidão, mas ali onde se encontravam, tornava-se mais uma motivação para continuar a campanha do ódio. Marcos não conseguiu entender como ele havia lhe deixado tanto se entumecer pelas suas memórias ao ponto de se transportar a ela. Seria o incomensurável amor que sentia por sua mulher? Seria o medo infligido pelo mesmo?  Marcos não sabia, mas isso o fez refletir que todos ali também tinham os seus “incomensuráveis amores”. Que o soldado o tinha, e que aqueles que lhe desejavam a ruína também. A ausência de sentimentos sempre foram tópicos de extrema frequência nos discursos de seus finórios superiores e era referência intocável para Marcos, até aquele momento.
Marcos havia renegado por certo tempo ao sentimento que havia deixado inerte, mas todavia não tinha se desfeito dele. Por mais que assim o quiseste não o conseguia. Aquilo o  havia desventurado. Mesmo consciente, deixava espasmos em sua lembrança querendo lhe tomar por inteiro,  desvirtuando-o, o deixando involuntário. O oficio já não lhe regrava mais.
Tirou o suntuoso fuzil de seus ombros que apontava  para a linha de trovejos incessantes a sua frente, abaixou-o até a base de sua cintura, olhou para seus companheiros, mas não disse nada. Respirou fundo e deixou-se flutuar por aqueles pensamentos. Pulou a trincheira que estava a sua frente com dificuldades, por ventura da altura e arames farpados que meramente os sentiu, e seguiu para o horizonte que tanto o chamava.
-Olha! para onde ele está indo? Perguntou o recruta para seu outro companheiro
-Oh não,meu deus…
-Senhor!! – Gritou o soldado
-Não se preocupe soldado – Respondeu Marcos – eu estou indo para o meu objetivo…
E assim o fez. Segurando o seu fuzil, Marcos caminhou por entre o centro do embate, seguido pelos olhares atônitos de seus companheiros que tiveram a honra de observar o desfecho da grande glória da humanização de um homem, em sua pura e simples forma paradoxal.

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