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Entre – ter, sem – ter – tido

  

Reneé acordou mas não conseguiu abrir os olhos. Sentia-se extremamente exaurido. O silêncio reinava. Era como se estivesse flutuando no vácuo, perdido por entre o espaço e o tempo. A linha de seus sentidos estavam fracas, muito mais do que habitualmente se tem quando se desperta e também do tempo em que consterna até o retorno.

Reneé percebeu e tentou novamente sem êxito abrir os olhos. Sua pupila movimentava, era o álibi que findava a alusão que obtivera a estar em sonho e também o seu ponto de equilíbrio.

Sobre suas pálpebras sentiu atravessar luz. Percebeu que com a movimentação das pupilas esparsamente voltava os sentidos. Começou a ouvir vozes, muitas, distantes e ininteligíveis. A inconstância da percepção de sua coluna juntamente com a força do batimento de seu coração, demonstravam que estava deitado em algo sólido, áspero e quente, que nada lembrava a sua habitual cama ou algo parecido.

Aquele não era um dia normal “talvez eu esteja doente”, pensou, “e de quem são essas vozes? Tenho que levantar…”  Reneé tentou deslocar seu braço, mas sua força não era suficiente. Sentia como se estivesse aprisionado dentro de sí. Seus movimentos eram internos, como a angústia de um pássaro recém capturado de seu voo, de um peixe retirado do mar.  A liberdade retirada repentina se transforma em morte se houver contemplação.

Reneé sabia disso e também que sua obstinação e resiliência o faria ter a renitência necessária ao enredado ensejo. A inércia dos sentidos definhava-se com a com palpitação de sua angústia.

O gosto de fel no céu de sua boca e a acidez contínua em sua garganta, pressionaram para que abrisse a mesma,  juntamente em retaliação ao arfar de seus pulmões, que ostentava um de seus dias mais árduos.

Os sonidos de vozes ganharam coadjuvantes. Ouvia como se estivesse em um evento de protesto, onde sons homogeneízam em um tom ininteligível, único e original, que obtém dos estigmas sempre o que lhe é de dever.

Dentro daquela eufonia, Reneé inferiu um som, uma voz doce e aveludada que ao passo dentro do caos ia tomando corpo e forma. Era de uma mulher, 20 à 25 anos, que foi obliterada em razão da viscosidade que Reneé sentiu em sua camisa na região abdominal. Notou que ao respirar a impulsão fazia um pequeno confronto de temperatura de sua pele extremamente quente e úmida, com a da camisa de menor temperatura. Essa impulsão também o faria sentir escorrer pequenos filetes úmidos de seu abdomêm, como pequena sucção por pressão a cada expiração que fazia.

O mesmo filete sentiu descer por sua têmpora, tez e nuca, em um ritmo menor do que seu abdomêm “Isto não é suor”,  pensou,  “o que está acontecendo comigo?” Reneé começou a efervescer. Seus pensamento e sentidos entraram em um estado vulcânico. Todo o seu corpo começou a estremecer ansiando por espaço. A voz feminina estava cada vez mais próxima. O timbre acalantador postou renée a ouvir.

– Com licença… licença, ele precisa de espaço.

– Acalme – se, eu sei que pode me ouvir. Você é forte… aguente… falta pouco tempo pra que tudo isso acabe. Está chegando, está chegando a…

O tremor de seu corpo parou quando Reneé sentiu sobre sua mão um toque fraternal, de pele fina e macia como seda. Reneé agarrou aquela mão e seus sentidos e pensamentos explodiram. Como um ser aprisionado que compele à exaustão todas as suas forças contra saída e é surpreendentemente libertado, em susto e surto Reneé põe-se de pé em segundos.

As pessoas ao redor chocadas, entoam palavras de inexatidão. Alguns assustados deixam o local, outros, a maioria, deixam a maléfica curiosidade falar mais alto e postam-se a observar. Alguns até tiram fotos para guardarem aquele momento inimaginável.

Em pé, Reneé sente escorrer um pouco mais os filetes de sua cabeça. Não só pela têmpora e tez, como agora também por seu cabelo de médio comprimento, o que fez respigar sobre as mãos entrelaçadas. Reneé abre os olhos e a primeira imagem que vê diante do caos é a de Luana. Os cabelos loiros até os ombros, a pele de marfim e os olhos castanhos claros quase fizeram Reneé prostrar-se novamente. Levantou os braços que já estavam manchados, colocou sua mão entre o rosto e os cabelos de Luana, deixando uma pequena pintura sua naquele belíssimo quadro branco e disse:

– Obrigado por me libertar, se não fosse por você eu jamais conseguiria sozinho e não poderia fazer o que…

– Eu não fiz nada, por favor deite-se, a ambulância já está vindo. O senhor não está em condições de ficar em pé, olha só o que…

E Reneé a interrompeu com um beijo, longo e apaixonado. Nem mesmo o insolente gosto do que descia de sua cabeça e encontrava os lábios de ambos, a intimidação da multidão ao redor e suas reflexões atordoadas, os fizeram parar. Era como se os fluídos apaixonados construíssem um outro cenário, onde vozes se tornavam cânticos de pássaros e o asfalto, a grama de um perfeito jardim.

– Obrigado, disse Reneé e saiu em direção ao local do acidente.

No espaço de tempo em que Reneé estava em pé e abriu os olhos, tomou para si tudo o que havia acontecido anteriormente e como estava após. Sabia que o seu tempo estava se esvaindo e que talvez o seu corpo não suportasse o que pretendia fazer. Reneé não olhou para trás e continuou a andar. Sua perna esquerda já não mais obedecia e seus passos fazia encurvar sua coluna. Arrastava-se  e seu interior todo movia a cada encurvadura. Olhou para seu carro, viu o vidro dianteiro todo quebrado e pensou o quanto é difícil livrar-se de um costume, o seu era de não usar cinto de segurança.

Com extrema dificuldade conseguiu chegar ao local do acidente. Não foi ao seu carro, ao espanto de todos, e sim ao algoz, detentor e criador do caos. Um outro carro, que estava em partes – devido a força – com a dianteira fundida com a sua.

Reneé foi até a porta do passageiro, abriu e viu um senhor com idade entre 45 e 50 anos ao volante. Estava consciente e em estado de choque.

– Olá, disse Reneé, tossiu, limpou sua garganta  e cuspiu uma mistura de fluidos com textura e cor que nem ele mesmo saberia descrever

– Com licença…

Começou de certa forma a revistar aquele senhor, queria conhecer o seu algoz. Pegou sua carteira e viu que era um militar, sarcásticamente bateu continência e disse:

– Capitão, o senhor nunca mais irá tirar a liberdade de ninguém.

Reneé ouviu o capitão balbuciar de forma etílica e ininteligível algumas palavras e em seguida deu três tiros com a sua própria pistola 45 que achou junta a sua carteira, dois no seu peito e um no pescoço.

Após, pegou uma gafarra de whisky 20 anos estrangeiro, provavelmente escocesa, que estava jogada no carro do capitão e surpreendentemente ainda tinha dois dedos do líquido. Reneé sentou no asfalto, enconstou no carro, deu o ultimo gole no whisky, viu a imagem de Luana correndo em sua direção, com semblante de choro e desespero, sentiu sua visão escurecendo e finalmente pensou que poderia descansar e voltar a dormir naquele dia incomum.